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Escrito por darcisio   
Qui, 10 de Dezembro de 2009 10:15

  Filosofia da Educação e Filosofia para Crianças


Darcísio N. Muraro

Filosofia e Educação
Filosofia para Crianças emerge das concepções de Filosofia da Educação desenvolvidas por Lipman. A referência da qual parte Lipman é Dewey, que em 1916 já havia alertado para a íntima associação entre Filosofia e educação: “A ´Filosofia da educação` não é a aplicação exterior de idéias já feitas a um sistema de prática escolar que tivessem origem e meta radicalmente diversas: é apenas uma formulação explicita dos problemas da formação de uma mentalidade reta e de bons hábitos morais, tendo-se em vista as dificuldades da vida contemporânea. A mais profunda definição de filosofia que se possa dar é a a de ser a teoria da educação em seus aspectos mais gerais.”  (Dewey, 1979, p. 364) Partindo deste pressuposto, Lipman entende que  é necessário estabelecer novos fundamentos para a prática da filosofia e da educação, o que depende de um novo olhar para a criança. Vale a pena lembrar que a proposta deste filósofo não é a mera introdução de um Programa de ensino de Filosofia em sala de aula, com uma hora semanal e com materiais didáticos como as novelas filosóficas para alunos e manuais para o professor ou qualquer outro material  didático para este fim. Esta prática é mais condizente com o ensino tradicional e com o tecnicismo educacional, criticados por Lipman, como sendo o paradigma padrão preocupado com a transmissão de conteúdos. Lipman questiona os perigos do autoritarismo e doutrinação deste paradigma que compromete o desenvolvimento do pensar reflexivo.
Lipman entende que ao longo da história os filósofos têm se ocupado de pensar conceitos que são usados para estruturar a experiência diária. Além disso, para filosofar é necessário cultivar a excelência do pensar. Ao explorar as dimensões filosóficas da experiência é possível melhorar a capacidade de julgar e agir. Algumas destas dimensões filosóficas da experiência são: a lógica, linguagem, ética, política, estética, antropológica. Elas não esgotam a investigação filosófica, já que outras dimensões podem surgir do questionamento filosófico. O problema é que a filosofia adquiriu um status acadêmico, uma especialidade por vezes elitista, um deleite sentimental para poucos ou dogmas arbitrários, distanciando-se do seu lugar e função que é o de contribuir com o crescimento de sentidos da experiência humana. A filosofia é um instrumental necessário na vida das pessoas na luta cotidiana para dar sentidos à existência e conduzir melhor a experiência.  Por isso, é necessário aproximar a filosofia à vida das pessoas, não para memorizar as idéias dos filósofos, mas para pensar reflexivamente a experiência, construindo e reconstruindo permanentemente as crenças. Isto se consegue privilegiadamente pela educação.
A criança, desde muito pequena, está imersa numa experiência de pensar e refletir sobre seu próprio pensar. Sua experiência contém multiplicidade de problemas. Seguidamente ela se coloca perguntas sobre aspectos que envolvem conceitos como verdade, justiça, bondade, autoridade, amizade, realidade, amor, conhecimento, felicidade, etc. Para significar sua experiência ela necessita e aprecia o pensar filosófico. A sua experiência pode ser conduzida de maneira reflexiva permitindo ampliar os sentidos com a dimensão da valoração, da beleza, da justiça, da convivência, etc. Descobrir estes sentidos é motivo de grande alegria, o que contribui para o desenvolvimento do senso de auto-estima. Esta experiência é fonte da criação dos sentidos que constituem cada pessoa e que orientam o pensar, o falar e o fazer na vida. Por isso, o conjunto de teorias ou sistemas de ideias desenvolvidos ao longo da história da filosofia deveria ser reconstruído para que as crianças pudessem ter contato com as mais variadas dimensões exploradas pelos filósofos e ser engajar na experiência do filosofar.
Historicamente, as questões originárias no campo da filosofia deram origem à grande diversidade de conhecimentos, dentre eles as ciências. Decorre daí a necessidade de repensar o paradigma padrão da educação como transmissão de conhecimentos ensinados como não ambíguos, não equívocos, exaustivamente dominados. Na educação tradicional, o professor é a autoridade que detém o conhecimento e o transmite aos alunos que não o sabem. Os alunos devem absorver e estocar os conhecimentos para seu uso futuro. Este modelo de educação privilegia a memória e não as demais capacidades como a do questionamento, da reflexão e do agir socialmente.
Lipman considera que não é mais aceitável a educação ter como objetivo a transmissão do saber diante da rapidez das mudanças tecnológicas, econômicas, sociais, ecológicas, etc. As informações se tornam obsoletas em curto período de tempo, o contexto social sofre mutações e se complexifica, o desenvolvimento dos meios de comunicação e o processo de globalização expõem as crianças à pluralidade e fragmentação dos sistemas de referências. Diante deste quadro de uma sociedade em profundas e rápidas transformações, Lipman propõe um novo paradigma de educação que a compreende como investigação (inquiry) em comunidade, portanto, uma educação orientada pelos valores da vida democrática. Por isso, o aspecto principal do processo educacional é melhorar a capacidade de pensar, condição básica para a participação democrática. “Quando a educação se transforma em educação como investigação e educação para a investigação, o produto social desta mudança institucional será a democracia como investigação e não meramente democracia.” (Lipman, 1995, p. 355) Para Lipman, a filosofia é a disciplina que historicamente tem se ocupado de pensar sobre o pensar. Ela aperfeiçoa o processo da investigação tanto na forma como no conteúdo. Assim, Lipman vê a educação em toda sua complexidade como um modo de investigação. A Filosofia se insere neste modo de investigação desempenhando papel fundamental na medida em que contribui com questionamentos de ordem lógica, ética, política, epistemológica, etc. Somente desta forma é possível ensinar a pensar por si mesmo e sobre o próprio pensar.
A educação deveria partir do que é problemático na experiência dos alunos e, num ambiente de comunidade, desenvolver a investigação rigorosa, crítica, criativa e cuidadosa. O processo investigativo, cooperativo e deliberativo, proporciona também o desenvolvimento de habilidades de pensamento contribuindo para o aprender a pensar de forma autônoma e autocorretiva, aprender a conviver em ambiente dialógico e democrático, aprender a agir de acordo com valores éticos cujos significados foram processados pela reflexão, aprender a participar do exercício da cidadania de forma responsável. Assim, a educação pode realizar sua função cognitiva, social, política e ética.
Podemos acrescentar na lista de referências utilizadas por Lipman nomes como John Dewey, George H. Mead, C. S. Peirce, Jean Piaget, L. Vygotsky, Justus Buchler, Gilbert Ryle, Ludwig Wittgenstein, Martin Buber, Kant, e outros. Algumas destas contribuições estaremos aprofundando em nossas discussões seguintes.

Criança e Filosofia
Para Lipman há algo em comum entre a criança e o filósofo: a capacidade de se maravilhar com o mundo. A criança e a filosofia são aliados naturais, diz ele. Os filósofos levam esta capacidade de maravilhamento às últimas conseqüências, descobrindo e investigando os problemas da experiência humana. Tais problemas giram em torno de conceitos centrais, comuns e controversos da nossa experiência que são sempre problematizados pela própria filosofia. Assim, os filósofos conseguem criar e reconstruir conceitos e buscar formas de explicação mais abrangentes para os problemas da vida. As crianças ficam intrigadas com os mesmos conceitos problemáticos tratados no campo da filosofia ao longo dos séculos, ou seja, colocam-se questões sobre a verdade, as regras, a justiça, a realidade, a amizade, o poder, a morte, a beleza, o conhecimento, a linguagem, etc. Para lidar com estas questões, elas necessitam aprender a pensar filosoficamente. Diz Lipman: “A filosofia, portanto, é muito benéfica para as pessoas que procuram formular conceitos que possam efetivamente representar aspectos de sua experiência de vida.” (Lipman, 1994:52) A Comunidade de Investigação é pedagogia para aprender a filosofar e a desenvolver um “pensar bem”, um pré-requisito da capacidade da criança de aprender em todas as demais áreas de conhecimento. O maravilhamento da criança é inquiridor e suas perguntas representam a possibilidade de um outro olhar sobre mundo. “Essas perguntas representam a busca das crianças por globalidade e inteireza, seu saudável desprezo por categorias artificiais e barreiras para a compreensão.” (Lipman, 1994: 52). A curiosidade e a imaginação reflexiva associadas a uma adequada mediação podem criar novas atitudes e conceitos para interpretar e transformar o mundo.
Lipman, ao visitar escolas brasileiras na periferia de São Paulo, declarou em uma das suas conferências que o que mais lhe chamou a atenção foi o brilho nos olhos das crianças brasileiras. Os olhos de uma criança que começa a filosofar se transforma radicalmente. A surpresa, o maravilhamento, encanto e admiração próprios da criança significam um recomeço que é também a possibilidade de renovar a filosofia, como um movimento de volta às suas origens.
Para Lipman, existem três coisas com as quais a filosofia se preocupa mais insistentemente: “1. devemos aprender a pensar de forma mais clara e lógica possível; 2. Devemos mostrar a relevância desta forma de pensar, ao lidar com os problemas que nos desafiam; 3) Devemos pensar em como encontrar novas alternativas e criar novas opções.” (Lipman, 1998, p. IX)
A proposta filosófica e educacional desenvolvida por Lipman e colaboradores oferece uma pedagogia específica que é a Comunidade de Investigação e um currículo de filosofia desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, organizado em livros que ele denominou de Novelas Filosóficas. Esta é a forma que Lipman encontrou para apresentar a filosofia às crianças, como uma possibilidade de fazer filosofia a partir da própria filosofia. As novelas têm a preocupação de estimular a imaginação sobre questões filosóficas como forma de incentivar as crianças a pensar por si mesmas ou a filosofar por si mesmas. Porém, a ambiência adequada para o filosofar é a Comunidade de Investigação. Sem esta prática central de Filosofia para Crianças, o mais estimulante material quer sejam as novelas, literatura, textos filosóficos, filmes, etc., podem ser ineficientes. A participação na Comunidade de Investigação envolve empática e vitalmente os membros num movimento cognitivo importante que exige ações como: fazer perguntas, criar e averiguar hipóteses, pedir e dar razões, exemplos e contra-exemplos, questionar os pressupostos, fazer inferências e seguir a investigação por onde ela caminha. Como empreendimento social e cooperativo, ela requer dos estudantes a partilha de suas perspectivas que são submetidas à reflexão do grupo, o olhar e a escuta atenta do outro, colocar-se no lugar do outro, perceber perspectivas novas, reconstruir as próprias idéias. As habilidades cognitivas e sociais são adquiridas naturalmente neste contexto e não de forma isolada como num treino técnico.

A Comunidade de Investigação
A Comunidade de Investigação (inquiry) é um dispositivo pedagógico que permite integrar os aspectos razão ou inteligência, das emoções e das relações sociais. Nela, a conversação é orientada pelo diálogo e a problematização desenvolve as operações mentais do pensamento e da linguagem para a produção de significados (atitudes, disposições habilidades e competências de pensamento). Este dispositivo é regulado pela razoabilidade como característica pessoal e pela democracia como característica social, resultando num exercício sociopolítico da ética e da cidadania. Lipman combina, assim, aspectos fundamentais da filosofia e da psicologia para o aprendizado reflexivo na infância: interesse, emoções, valores, comunidade, disposições e habilidades de pensar, além de três dimensões de pensamento: a crítica, a criatividade e o cuidado.
A Comunidade de Investigação é uma forma de operacionalizar o aprender a aprender a pensar. Lipman entende o pensar de forma multidimensional, ou seja, o pensar bem é crítico, criativo e cuidadoso. Não é algo que se consegue de forma imediata, exige um trabalho sistemático e bem planejado.
A Comunidade de investigação não é um método para memorizar conteúdos ou valores como já mencionamos. É uma forma de vida cidadã e democrática em permanente reconstrução dos significados que servem como referências, através do processo dialógico e cooperativo. Mas para desenvolver este trabalho é necessário repensar a relação entre adulto e criança. Lipman explicita sua crítica diante da incompreensão do adulto em relação à criança, especialmente da falta de percepção e da má interpretação, “vendo-a como extravagante e caprichosa, em vez de experimental, como precipitada em vez de aventureira, como indecisa e vacilante, em vez de prudentemente hesitante, como ilógica em vez de sensível aos conflitos e ambigüidades, como irracional em vez de resoluta em proteger sua própria integridade.” (Lipman, 1998, p. 25) Para ele a curiosidade infantil, o interesse pelas descobertas, a capacidade de imaginar e criar ainda livre de tantos preconceitos são fatores que contribuem para o filosofar.
Lipman vê o filosofar praticado numa comunidade de investigação como uma forma de satisfazer a necessidade de continuidade no processo de aprendizagem: “Se a principal contribuição da criança ao processo educacional é seu caráter questionador, e se a filosofia é caracteristicamente uma disciplina que levanta questões, então a filosofia e a crianças parecem ser aliadas naturais.” (Lipman, 1998, p. 50) A rica e inesgotável fonte de significados da tradição filosófica pode auxiliar as crianças na exploração de seus próprios pensamentos e experiências. Filosofia, comunidade, diálogo e educação, neste paradigma, são criações humanas voltadas para tornar a experiência significativa. “Assim como todo mundo, as crianças anseiam por uma vida repleta de experiências ricas e significativas.” (Lipman, 1998, p. 25) E esta forma de vida que promove o aprender a pensar, interpretar, conceituar, raciocinar, julgar, escolher em todos os âmbitos da vida em que as situações problemáticas requerem investigação. Nas palavras de Lipman: “Filosofia para Crianças incentiva as crianças a pensar por si mesmas e as ajudará a descobrirem os rudimentos de sua própria filosofia de vida. Fazendo isso, estará ajudando a desenvolverem um senso mais concreto de suas próprias vidas. (Lipman, 1998, p. 114)
Na comunidade de investigação o professor não pode negligenciar o compromisso da filosofia com a vida, portanto, com as perguntas e com a reflexão sobre questões de interesse do grupo. Exige um profundo respeito do professor pelos questionamentos dos alunos. Este respeito se traduz na acolhida às perguntas que intrigam as crianças e envolver-se na investigação. A atitude do professor de empatia pelos questionamentos dos alunos, seus questionamentos e esforços didáticos para ver os alunos envolvidos no diálogo reflexivo, sua curiosidade para descobrir novos significados constituem uma energia vital para a comunidade de Investigação. Diz Lipman: “Isto coloca o professor na situação de alguém que questiona ou investiga tanto quanto a criança.” e sua preocupação é a de “olhar o assunto através de perspectivas mais ricas e  variadas.”  
O filosofar em comunidade de investigação recupera a origem e destino social da filosofia. Pelo procedimento dialógico é possível fortalecer as condições subjetivas e objetivas da convivência democrática, praticando valores como a liberdade, a solidariedade, o respeito, a empatia, a confiança, a argumentação, etc. e conquistar a autonomia individual e coletiva.
A vida da criança nesta prática comunitária através da intensa comunicação auxilia no desenvolvimento da sensibilidade social, cultural, política, ética, estética e cognitiva. Desta forma, amplia-se a capacidade de crescer da criança.

Os materiais didáticos
O currículo de Filosofia para Crianças é composto de Novelas Filosóficas e Manuais de orientação ao professor. Lipman escreve as novelas como forma de apresentar os problemas tratados pelos filósofos às crianças. A leitura dos textos clássicos dos filósofos é tarefa muito difícil para uma criança dada a linguagem hermética dos mesmos. Além disso, a narrativa criada nas novelas apresenta uma variedade de estilos de pensar e agir numa comunidade de crianças investigadoras. Para ele, as novelas, recorrendo a estratégia da ficção, ajudam a “dramatizar” a filosofia para as crianças na medida em que as personagens discutem conceitos e questões problemáticas que poderão interessar os alunos e ser aprofundadas na Comunidade de Investigação mediada pelo professor. Ele pode recorrer ao auxílio do livro do professor para continuar este processo de “dramatização” real que é a investigação filosófica durante a aula.
O quadro seguinte mostra a composição dos materiais de Filosofia para Crianças.

 

 

Novelas

Filosóficas

 

Rebeca

 

(Ed. Infantil e 1º ano)

 

Issao e Guga

 

2º e 3º anos

 

Pimpa

 

4º e 5º anos

 

A Descoberta de Ari dos Telles

6º e 7º anos

 

Luísa

 

8º e 9º anos

 

Manuais

Preparando-se para Filosofar

Maravilhando-se com o Mundo

Em busca do sentido

Investigação Filosófica

Investigação Ética

 

 

 

 

Áreas da Filosofia

Antropologia Filosófica

 

Procedimentos da Investigação Filosófica em Comunidade

Filosofia da

Natureza

 

Teoria do Conhecimento

Filosofia da Linguagem

 

Metafísica

Lógica

 

Teoria do Conhecimento

 

Filosofia da Educação

Ética

 

Estética

Comunidade de Investigação*: inquiry no inglês é inquirição que tem diferenças com investigate que é investigação.

 

A importância do Professor
Lipman destaca o papel de mediação do professor neste processo: “Qualquer criatura viva passa por um processo de crescimento, mas a ampliação da capacidade de crescer é algo só pode ocorrer sob a influência de um professor cuidadoso, interessado e que sabe o que faz.” (Lipman, 1998, p. 96) O papel do professor é de lidar com o crescimento das capacidades e estilos de pensar de seus alunos, incentivando tanto a criatividade quanto o rigor intelectual: “ao ensinar filosofia, o professor deve estar preparado para alimentar uma profusão de estilos de pensar e ao mesmo tempo insistir em que o pensamento de cada um seja tão claro, coerente e compreensivo quanto possível, desde que o conteúdo do pensamento não fique comprometido. (Lipman, 1998, p. 127). A contribuição do professor é ajudar a expressar a individualidade de sua experiência e a originalidade de seu ponto de vista. (cf. Lipman, 1998, p. 29) É neste intenso processo de conviver com formas de pensar e se comunicar diferentes que as crianças aprendem umas com as outras. Trata-se de um processo de internalização do comportamento cognitivo aberto da comunidade cuja característica é a autocorreção. Esta é a forma como Lipman entende a expressão vygotskiana “reprodução intrapsíquico do interpsíquico.”
Lipman insiste na percepção das duas dimensões que se deve cuidar em relação à criança no trabalho com filosofia:
[...] cada criança é um indivíduo e, ao mesmo tempo, faz parte da comunidade. Esses dois fatos são indissociáveis. Como indivíduo, a criança é única e pode desenvolver suas capacidades específicas de acordo com o papel que desempenha no grupo. Sua especialidade individual se revelará na diferença que faz no grupo, e cada diferença deve fazer uma diferença. (Lipman, 1998, p. 210, itálicos do autor)
Por sua vez, a filosofia praticada na comunidade de adultos e crianças é uma atividade altamente estimulante: “O fato de adultos e crianças, conjuntamente, explorarem as possibilidades filosóficas, é uma das conseqüências mais agradáveis e estimulantes da filosofia.” (Lipman, 1998, p. 49) Neste sentido, vale a pena reler as frases das crianças citadas no início deste texto.
 A Comunidade de Investigação pode ser ampliada no âmbito escolar transformando-se numa prática para todas as áreas de conhecimento. Nesta prática pode ser desenvolvido o pensar matemático, pensar artístico, pensar histórico, pensar científico, pensar religioso, etc. Além disso, estas formas de pensar se entrecruzam proporcionando um intenso processo inter e multidisciplinar. Por que não tentar?

Repensar a formação do Professor
A formação dos professores para desenvolver a filosofia em sala de aula é uma das preocupações centrais de Lipman e colaboradores. Decorre daí a vasta produção teórica e criação de organismos que se dedicam a esta prática. A formação em Filosofia para Crianças visa romper com o paradigma padrão da formação dos professores que é o de transmissão de conteúdos, prática que é reproduzida em sala por esses professores formados neste modelo. 
A formação do professor que quer trabalhar com Filosofia para Crianças consiste numa experiência de filosofar em uma Comunidade de Investigação, mediada por um professor mais experiente nesta prática e com profundo conhecimento dos pressupostos, alguns mencionados anteriormente. Esta experiência não é possível de ser transmitida por livros ou explicada como acontece numa aula tradicional, embora explicação faça parte do processo de aprendizado em comunidade. Assim, a compreensão pelo professor das concepções de Filosofia para Crianças necessita de três processos que se complementam: explicação, modelagem e experiência. Diz Lipman: “Esses três componentes – explicação, modelagem e experiência – são indispensáveis na preparação dos professores para ensinar filosofia para os alunos de 1º grau.” (Lipman, 1994, p. 173) Portanto, a formação do professor em filosofia para crianças exige o seu envolvimento no processo de filosofar. O que se busca é um professor filósofo. Para Lipman, o bom professor é aquele que faz da aula uma prática do filosofar: “Um bom professor de filosofia nunca atinge um ponto onde parece não haver mais necessidade de questionamento.. O mundo é inesgotavelmente desconcertante.” Assim a aula é uma prática de investigação filosófica que exige a participação forte e perspicaz do professor: “Os filósofos são experientes em planejar perguntas encadeadas que provocam os alunos a buscarem explicações cada vez mais amplas para suas experiências. (...) Dessa maneira, a área de inteligibilidade do tópico em discussão é continuamente ampliada, mas nunca com a sensação de que todos os mistérios desa área foram desvendados.” (Lipman, 1994, p. 173) Alerta Lipaman, portanto sobre a dificuldade de formação do professor filósofo: “É esse comportamento de maravilhamento que é tão difícil de ser explicar ou transmitir por meio de técnicas, estratégias ou receitas. O maravilhamento não pode ser fingido; tem que crescer a partir da própria experiência. Mas a melhor maneira de produzir esta experi~encia é o professor modelá-la e a adquirimos por contágio. Uma vez que se tenha contraído essa doença e experimentado a libertação dos dogmas que ela produz, não se pode descansar até ter contagiado os estudantes com a mesma experiência.” (Lipman, 1994, p. 174) A modelagem como formação de que fala Lipman é aquela que se processa na prática da Comunidade e Investigação. Esta prática formativa não se esgota num curso ou numa disciplina acadêmica. Exige cultivo e continuidade desta prática pelo professor com seus alunos e seus colegas de trabalho (experiência), sempre acompanhada do aprofundamento da experiência pelo estudo e pela troca de experiência. Assim, Lipman pretende articular uma continuidade entre filosofia, educação e vida.

Referências:
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______, WAKSMAN, Vera. Filosofia para crianças Vol. II - Na prática Escolar.  Petrópolis:Vozes, 1999.
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LIPMAN, Mathew. A filosofia vai à escola. 2ª ed., São Paulo: Summus, 1990.
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