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A Filosofia na Comunidade de Investigação: educar para o pensar e para valores.

Palestra realizada pela Professora Doutora Ann Margaret Sharp, colaboradora do Prof. Dr. Matthew Lipman e Diretora Adjunta do IAPC (The Institute for the Advancement of Philosophy for Children), em 18 de agosto de 2001, no auditório do Colégio Marista Santa Maria.

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Ann Sharp

é professora na área de Educação e Diretora dos Programas de Graduação e Pós-Graduação em Filosofia para Crianças da Montclair State University, EUA. Especialista no estudo do ensino de Filosofia para Crianças há mais de 20 anos, é co-autora de dois livros publicados no Brasil: Filosofia na Sala de Aula (escrito com Matthew Lipman e Frederick Oscanyan) e Uma Nova Educação (escrito com Laurance Splitter). Além disso, tem vários artigos publicados em português, como: Educação: Uma Jornada Filosófica e Comunidade de Investigação: Educação para a Democracia.

 

A filosofia e a libertação

Têm acontecido várias revoluções na história do Ocidente: a emancipação dos escravos, a emancipação das mulheres, e é possível pensar que a filosofia para crianças possa ser considerada uma terceira revolução. Se eu quiser ser um libertado, meu educador e a sociedade em si devem me proporcionar as ferramentas necessárias para pensar melhor, para escolher melhor e para fazer bons julgamentos em minha vida. Isso não é fácil. E a filosofia para crianças tenta dar a elas algumas ferramentas cognitivas, emocionais e sociais necessárias para fazer bons julgamentos. Oferece opções, pois sem opções não se é uma pessoa livre.

Filosofia, disciplina que cuida dos conceitos

A filosofia é uma disciplina  um pouco diferente,  capaz de nos ensinar algo de novo em relação a  alguns conceitos conhecidos desde que aprendemos a falar, tais como a liberdade, o eu ou o ser, a morte, a amizade, o amor, significado, mente, educação, etc. E há outros usados no dia-a-dia, tais como: espaço e tempo, linguagem, relações de amizade, relações entre mente e corpo. Conscientes ou não desses conceitos, eles delineiam nosso dia-a-dia e nos perguntamos como uma criança de três anos pode estar envolvida com eles. Mas as crianças se familiarizam porque os aprendem com a sua família, vizinhos ou amigos. São conceitos que não questionam, a não ser quando alguns problemas começam a aparecer e passem a pensar sobre o assunto. Então se sentem encorajadas a perguntar: “Mãe, o que você quer dizer quando usa o termo mente, o que é mente?” “O que é o espaço?”
A filosofia para crianças faz florescer a consciência, trabalhando-a e ajudando-a a tomar conhecimento de conceitos que estão submersos, e dos quais as crianças ainda não sabem o significado, mas os usam diariamente. Todas as escolhas que se faz na vida estão baseadas nas concepções (conceitos) que cada pessoa tem, consciente ou inconscientemente. A filosofia para crianças contribui para que estas consigam discutir essa variedade de conceitos, para adquirir a capacidade de - pensar por si mesmas - o que os conceitos lhes significam. É possível aceitar um conselho, mas sempre se está exposto a uma variedade de opções, nas quais se poderá escolher simplesmente a orientação de um psicólogo, de um amigo ou de outra pessoa qualquer. Não há nada mais trágico do que o adulto não perceber que tais conceitos podem ter significado controverso. Os filósofos questionam há mais de 2.500 anos os seus significados. A forma que uma pessoa reage depende da maneira como ela vê os conceitos.

Os objetivos educacionais de filosofia para crianças
Se me perguntarem quais os objetivos e o que estamos tentando alcançar com os estudantes direi duas coisas:

1- o entender;
2- a compaixão, que seria a empatia pelos sentimentos do outro.

O entendimento
O entender não seria propriamente o conhecimento, é algo muito mais amplo e profundo. Ao entender a filosofia, a pessoa começará a entender também seus movimentos, comparando-os aos movimentos de um jogo de xadrez. Entenderá quando deve dar um contra-exemplo, quando perguntar por razões, quando pedir clareza em algumas pré-suposições, quando perguntar por evidências, quando questionar se tal razão é boa ou não. É por isso que o nosso programa de filosofia tenta trabalhar esses conceitos com as crianças desde pequenas, pois ainda estão bastante abertas e ingênuas ou inocentes para receber e pensar melhor sobre algumas questões. Porque a filosofia necessariamente não vai nos trazer perguntas apenas; espera-se que a pessoa comece a entender a complexidade do conceito que está usando naquele momento, ou após uma hora de discussão. Começamos a entender a idéia que o amigo tem sobre tais conceitos, percebendo o quanto ela é diferente da nossa. A partir daí, é possível entender melhor o colega e seu ponto de vista. Se não se sabe o que o amigo pensa sobre tais conceitos, provavelmente também não se consegue entendê-lo. Esse é o primeiro ponto: entender.

A compaixão ou empatia.
O segundo ponto, a compaixão ou empatia, é o fundamento, a base, de todo entendimento conceitual. Quando não se tem nenhuma empatia pelos sentimentos do outro, é sinal de  perigo, pois se não entendo minha relação com o outro, minhas ações vão ser desviadas. O diálogo filosófico proporciona ferramentas suficientes para que a criança se conduza bem, pois começa a entender como seus amigos estão usando determinados conceitos como liberdade, amizade, amor. E, mais importante, começa a entender o porquê desses conceitos: qual o ponto de vista do seu amigo para que ele os use de tais formas e fazer o que ele faz. E pelo fato de entender o ponto de vista do amigo, como ele vê o mundo, pode-se dizer que  há o início de uma  empatia. Não podemos ter uma sem a outra.

A sala de aula como comunidade de investigação dialógica
Quando se está tentando transformar uma classe numa comunidade de investigação - onde os alunos possam começar a pensar diferente, no sentido de serem modelados ou levados a entender o que é democracia - de maneira que possam agir bem uns com os outros - o principal instrumento usado será o diálogo. Tenta-se ensiná-los como dialogar bem. Para fazer isso, as crianças vão manejar três tipos de pensar.

O pensamento crítico, criativo e cuidadoso
O primeiro será o pensar crítico, o outro será o pensar criativo e, por fim, o pensar afetuoso ou cuidadoso, o pensar ético. É possível formar uma pessoa crítica, analítica, com um pensar bastante criativo. O que se tenta fazer na educação infantil é reforçar um equilíbrio entre essas três formas de pensar, entre os três critérios do pensar. Quando alguém pensa criticamente, pensa na sua autocorreção, usando a idéia da verdade como guia. No pensar crítico, a busca da verdade é bastante sensível ao contexto. O crítico é sempre consciente dos critérios que estão sendo usados e está bastante preocupado com a auto-correçao. As pessoas que são bastante críticas na sala de aula, sempre trazem o que aconteceu ontem, estão sempre atentos ao que aconteceu. Eu disse tal coisa e agora estou pensando sobre o que você disse e eu penso que eu concordo com você e não há problemas em dizer isso. Um professor crítico não tem problemas em dizer que errou, que está errado e Sócrates diz que isso tem que acontecer. O pensador crítico tem que ser bastante preocupado com detalhes, os bons matemáticos tentam ser imparciais, eles tentam!
Pensando criativamente, somos guiados pela idéia do significado e, ao usar o pensar cuidadoso ou afetuoso, pensamos no ideal do bem para nos guiar. Guiar-nos para o quê? Essa vai ser a forma que pode ser aprendida para fazer um bom julgamento, não um julgamento perfeito. Somos animais capazes de cometer falhas. Nós não sabemos tudo e provavelmente não saberemos. Por isso que teremos que sempre nos autocorrigir. Para ser um excelente pensador, é necessário usar os próprios pensamentos de maneira crítica, criativa, cuidadosa e afetuosa. Tem-se que aprender como e quando usar esses diferentes tipos de pensar. E pergunta-se então: “o que é o pensar?” Sempre que tentamos processar as nossas experiências e praticá-las para dar sentido às coisas, estamos pensando.
O pensador criativo está buscando por significados e dá valor ao ser independente e original. As habilidades que eles usam são a imaginação, ele tem que usar sua imaginação. Por isso, que você tem que me ensinar como fazer isso. Você tem que me ensinar as conseqüências a respeito das minhas emoções, as conseqüências das minhas ações. Dependendo da forma como eu me imagino, você tem que me dar em sala de aula várias atividades que trabalhem a minha imaginação. De outra forma eu não vou poder ser criativo.
O pensar cuidadoso é o pensar valorativo, é o pensar nas coisas que são importantes no mundo, é apreciativo, é o que nutre, que cuida. Você pode dizer quando eu sou uma pessoa cuidadosa, afetuosa, pelas coisas que eu faço na minha vida, como eu trato com os outros, se eu estou preocupado se eles estão crescendo ou não. Você tem que estar bastante cuidadoso e atencioso se você se preocupa com os outros. Professores que são muito cuidadosos correm o perigo de serem super-protetores e, assim, não crescem ou não deixam o outro crescer.
O pensar crítico é mais preso a detalhes e o criativo procura algo que tenha harmonia, uma visão mais holística.
(...) O pensar cuidadoso também preserva as coisas na sua cultura, no seu meio. Você quer restaurar, cuidar, algo está ruim e você quer recuperar.(...) As pessoas cuidadosas são bastante simpáticas, sentem os sentimentos do mundo, apreciam sua forma única de ser, também a sua diferença, e realmente são preocupadas e atenciosas. Algumas pessoas dizem que isso é uma forma de dizer que se ama, forma que normalmente as mães têm com os seus filhos.
Para ser um bom educador todos esses pontos são importantes, porque as situações da vida levam a isso, e pela capacidade que temos de pensar nessas três dimensões. Isso é traduzido como um pensar de ordem superior.

O que acontece numa aula filosófica?
Acontece bastante diálogo, bastante ouvir, bastante dar sentido às coisas, mas há também outros pontos: as crianças estão aprendendo a prestar atenção nos detalhes das situações ocorridas naquele momento, e percebem que tais detalhes fazem com que uma situação seja diferente da outra. E, quando bem percebidos esses detalhes, os sentidos são utilizados de maneira melhor. Isso significa que, ao filosofar, não estamos apenas prestando atenção no mundo à nossa volta, mas também aprendendo como ler expressões faciais, linguagem corporal, para perceber além desse mundo, atrás das palavras. É necessário usar a empatia, perceber o sentimento dos outros. As crianças são muito boas nisso, melhores que os adultos. Quando aplicamos filosofia, estamos também constantemente comparando as situações, para que todos os nossos julgamentos estejam apoiados nessas comparações básicas. O primeiro passo é perceber se essa situação é a mesma, é similar ou é diferente. São decisões básicas que se tomam inicialmente. (...)
Outras ferramentas serão: dar exemplos, aprender como inferir, aprender a trabalhar com parte e todo, enfim, vários passos tomados para aprender. O centro é o julgamento final: pode ser um julgamento ético ou social, ou tecnológico. Por exemplo, o conceito de “eu” ou de “ser”: nos exercícios encontrados no manual para as crianças, há o questionamento “você poderá pensar em si sem pensar no outro?” Em outras palavras, você pode ter apenas o “eu”,  pode estar separado, sem contar com a existência do outro? (...)

O resultado de uma educação filosófica
Um dos filósofos do século XX definiu o pensar como um diálogo interno. (...) Imaginemos que eu tenho que fazer um julgamento e, para tanto, precise chamar toda a minha classe para ir à minha casa para me ajudar. Isso é impossível. Mas preciso tomar as decisões, saber o que fazer. Então, lembro-me da Maria que está sempre perguntando por razões, e também no Billy, indagando: “você já considerou alguma coisa assim?”  Ele está sempre considerando alternativas (...). Você sabe quantas alternativas existem quando você vai tomar uma decisão? Há muitas, e você tem que considerar cada uma delas (...). Eu estou aqui e penso na minha amiga Suzana, que está sempre dizendo: “o que vai acontecer se você fizer isso?”;  “Isso vai ser bom ou mau?”; e há também o Brendham: “por que você vai fazer isso?”: “quais são as suas intenções?”, “elas são boas ou ruins?”, “não seria melhor você pensar bem sobre isso?”. E também o David: “que tipo de pessoa você pretende ser?”, “essa ação sua vai ajudá-lo a ser tal tipo de pessoa?” Você começa a ficar doente com tantas perguntas, mas tem que pensar sobre elas. Cada um na sala de aula tem um tipo de questionamento. E há dias em que eu percebo que ainda estou pensando sobre o assunto e, quando eu tenho que fazer um julgamento, começo a pensar em cada coisa que cada amigo meu disse em sala. Às vezes, quando consideramos essas coisas,  decidimos que é melhor não fazer nenhum julgamento porque há muitas coisas a ser levadas em conta. E há outros momentos nos quais você ainda não está pronto para tomar decisões. Ambos estão certos. Esse processo que eu descrevi anteriormente é o que Vygotsky chama de processo de internalização, interiorização. Eu começo a interiorizar esse pensar filosófico.
Quando se tem que fazer um julgamento sempre é necessário considerar a questão das ações. (...)
Outra coisa importante é começar a crescer conscientemente e saber como se dá a construção desses conceitos filosóficos no dia-a-dia. Uma comunidade de investigação pode ser simbolizada pela escada e pelo corrimão. Aqui estão meus sentimentos, minhas emoções, e espero que cada vez mais possa ir me equilibrando para me tornar mais madura, menos impulsiva, pois minhas emoções também são julgamentos. Meus amigos podem dizer sobre meus sentimentos, por que eu estou ciumenta, podemos pensar sobre isso. Tenho que estar consciente de outros atos mentais com os quais eu e os meus amigos estamos envolvidos no dia-a-dia. Precisamos decidir entre fazer comparações, ou fazer perguntas, ou dar contra exemplos; em suma, estamos sempre fazendo algo. Muitos degraus para alcançar ou caminhar. Fazemos mais de setecentos atos mentais todos os dias.
Supor, inferir são vários atos mentais e os estamos sempre usando: as habilidades do pensar e as falácias formais, estas quando se usam más razões. Dizer para meu amigo “não, você não pode fazer isso” não é uma boa razão, não é razoável. Uma ordem superior do pensar faz com que se use a autocorreção, aí está a transcendência. O que fizemos ontem tentaremos hoje fazer melhor. Aqui está um pensar cuidadoso ou afetuoso. Deve existir um pensar cuidadoso a respeito dos animais, das plantas, da natureza. É onde temos a autocorreção, a transcendência, coisas que ajudam a fazer um bom julgamento.
Por que tais julgamentos são importantes? Porque tais julgamentos podem expressar nossos valores, quais valores, ou nos auxiliam a apreciar o belo, a estar atento aos outros que necessitam mais de nós. Isso nos conduz à questão do respeito e da consideração por todos os seres vivos do nosso planeta e da compaixão por todo sofrimento que existe no mundo. Todo sofrimento nos ensina o quanto somos frágeis, o quanto somos vulneráveis,  e o quanto não somos maravilhosos.  (Palmas).
Esperamos que as crianças façam bons julgamentos e às vezes as punimos se elas não o fazem, mas como esperar que elas façam bons julgamentos se alguém não lhes fornece as ferramentas suficientes para isso? Um bom julgamento requer um bom pensar e se não são dadas as habilidades e as ferramentas - e se espera um bom julgamento - não é uma situação justa .

Habilidades de pensamento e emoções
Uma pessoa não está só comprometida nas habilidades cognitivas para fazer um bom julgamento, mas há também o compromisso com suas emoções, o que lhe permite usar tais habilidades. Mesmo que estas sejam ensinadas, se não for ensinado como tornar-se maduro emocionalmente, não é possível saber usar bem tais habilidades. Diz-se que a pessoa sábia é aquela que sabe usar certas emoções no momento certo e na situação certa.
Viver uma vida em comunidade não é somente viver as habilidades cognitivas, é uma experiência social e emocional. Quando se começa a ficar mais maduro emocionalmente, começa-se  a perceber que se é tão responsável pelas emoções quanto pelos pensamentos, porque as emoções têm conseqüências. É necessário pensar nas conseqüências dos próprios sentimentos. Quando o ressentimento ou a mágoa aparecem em sala de aula, algo está errado, tudo começa a piorar, e as pessoas não usam as ferramentas apropriadas para nesse momento fazer bons julgamentos. Podemos perceber quando o cognitivo está acontecendo, mas também existe o emocional e, finalmente, o social.
Na comunidade a pessoa é colocada para cooperar e não para competir. É um processo social e não individual. Não é possível fazer, praticar, filosofia sozinho. Posso ler os livros de alguns filósofos ou ouvir o que meu amigo está dizendo. Mas preciso aprender como posso construir a partir das idéias do meu amigo. Quando eu dou alternativas ou contra-exemplos, mesmo quando ele não sabe dar razões para o que está dizendo, eu tento ajudá-lo. Serei um colaborador. Começo a me identificar com a comunidade em sala de aula, por ser esta uma comunidade de investigação. Nesse processo começo a colocar meu ego em perspectiva e perceber que todos são importantes. E mesmo que alguns não colaborem, temos que colocar os problemas para ajudar na comunidade.
Voltando um pouco, as três formas de pensar: crítico, criativo e cuidadoso são habilidades que nós todos precisamos ter para fazermos bons julgamentos. E você tem que aprender isso pela prática, pela experiência: quando usar “o que ou o qual”. É isso que a filosofia para crianças espera fazer em sala de aula.

 

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