tren_atrasado.jpg
Filosofia e Educação Reflexiva PDF Imprimir E-mail
Avaliação do Usuário: / 0
PiorMelhor 
Qui, 03 de Dezembro de 2009 01:05

Filosofia e Educação Reflexiva


Prof. Darcísio Natal Muraro!

A pergunta é a alma da filosofia!

As experiências com perguntas na infância são inesquecíveis. Representam tentativas inteligentes de lidar com as dificuldades, conflitos, dúvidas, problemas. As perguntas concretizam o desejo da criança de querer saber os mínimos detalhes da vida. São alimentadas pela curiosidade e a imaginação, as portas e janelas para a descoberta do mundo. Saltando das experiências mais simples, as perguntas impulsionam a criança para a conquista de um conhecimento necessário para compreender sua condição no mundo. As pergunas são para o pensamento o que os passos são para o corpo. Este movimento provoca a transformação da própria criança, de seu jeito de agir, brincar, ver e interagir com a realidade. O resultado é crescimento. Quem não lembra das horas matutandoo com certas perguntas que desafiaram a capacidade decifradora dos mistérios? Quem não lembra também do impacto que muitas perguntas causaram aos pais, amigos, professores?


Investigar a experiência de perguntar é ainda um grande desafio para entender a complexidade da mente humana. Poderíamos trabalhar com a hipótese de que a pergunta é a atividade humana que abarca o mais completo desempenho emocional e racional. Vejamos alguns indícios. Os acontecimentos cheios de novidades, mistérios e surpresas provocam a experiência do espanto na vida da criança. Este estranhamento estimula aventurar uma pergunta. A pergunta gera dois movimentos contraditórios: por uma lado, paralisa a ação; por outro, estimula e redireciona para ações diferenciadas como refletir, conversar com alguém, etc. Entrar na roda do questionamento implica fazer a suspensão de pré-juízos, isto é, um distanciamento da realidade para olhar com os olhos da inteligência o que falta em si mesmo. Permite a tomada de consciência de própria ignorância e coloca o ser humano em busca dos objetos da necessidade, do desejo. Sujeito e objetos tomam posição nesta brincadeira. Entram em cena outros sujeitos, já que a pergunta remete sempre a um contexto socializado. O dinamismo do jogo das perguntas conta agora com a reação destes sujeitos que podem aprovar, estimular e se envolver nesta atividade exploratória ou acabar logo com ela mostrando indiferença, respostas evasivas e até repressivas. "Cala boca Menino!" "Pergunte para seu pai!" "Isso é coisa de perguntar?" Colocações dessa ordem ainda continuam a acontecer a todo o momento por adultos desavisados do bloqueio ao pensar que causam. Por outro lado, as crianças são também interrogadas constantemente. Este é o outro lado da experiência compartilhada dos problemas. Compreender uma pergunta e pensar uma resposta exige reflexão. Nem sempre os adultos se preocupam com as conseqüências das perguntas que fazem às crianças. Há que se ter tato e sensibilidade para não se fazer perguntas infantilizadas ou adultas demais! Assim, chegamos ao outro ponto: o trato com as perguntas é um dos grandes problemas da educação filosófica. A maneira como as experiências sobre perguntas são conduzidas têm papel decisivo na formação ou deformação da atitude indagadora que perdurará pela vida afora.


Insistimos na questão: olhar atentamente as perguntas das crianças revela a riqueza da atividade de uma mente inquieta, curiosa, observadora, criativa e um espírito investigativo querendo desabrochar. Perguntamos: é possível cultivar e desenvolver esse "pensamento interrogante" da infância? Como? E as crianças que não perguntam? Existiriam bloqueios ao perguntar? Como lidar com isso? Seria possível despertar as perguntas adormecidas no universo infantil? Quais seriam as conseqüências disso? Que relação há entre perguntar e aprender, perguntar e pensar? Como o professor pode trabalhar com as perguntas em sala de aula? Existem perguntas certas e erradas? As crianças devem fazer perguntas ou elas devem apenas responder as perguntas dos professores?


Perguntar é uma atividade que só o ser humano é capaz de fazer e, certamente a mais importante de todas para a formação de um pensamento autônomo. As perguntas começam a aparecer muito cedo na vida da criança na medida em que elas adquirem a linguagem. A criança dá vida às palavras, brinca com elas, faz delas um brinquedo. As palavras se transformam no brinquedo dos brinquedos e das brincadeiras e isto possibilita construir um mundo imaginário. É certo que às vezes a brincadeira vai longe demais e o próprio brinquedo é que passa a jogar com a criança. Mas é isso que intriga, ou seja, a descoberta da variedade de relações que o pensamento pode fazer com o uso da linguagem. Neste processo de construção dos significados surgem problemas, porque algumas relações se tornam confusas, incompletas, ou então, quando confrontadas com as crenças, aparecem contradições, dúvidas, diferenças ou se tornam mesmo muito engraçadas provocando, inevitavelmente, muitas perguntas.


As perguntas das crianças expressam o encantamento diante do mundo e a necessidade de compreendê-lo melhor. Poderíamos afirmar que é na pergunta que está o interesse, ou a fome pelo conhecimento necessário para nutrir o pensamento na busca de significados. Esta busca pressupõe o diálogo. A educação não pode acontecer sem este princípio, ou seja, sem um amor efetivo às questões que nos tornam seres humanos reflexivos.


As descobertas e construções da filosofia, da ciência, da religião e da própria arte que constituem o que chamamos de "humanidade" se originaram de perguntas que captaram os problemas centrais da existência. Perguntar é uma das características marcantes de todos os homens e mulheres que deram grande contribuição para a cultura humana. Sensibilizados por problemas eles encontraram as perguntas adequadas para desenvolver novas concepções. Responder às perguntas portadoras de questões relevantes, buscando encontrar as melhores respostas, é a outra parte da prática investigativa. Neste processo de construção das "boas respostas" aparecem muitas outras perguntas e esta rede de perguntas e respostas abre o leque de alternativas na investigação do desconhecido. Uma mente aberta se ocupará com perguntas que interpelem pelas diversas dimensões da investigação: epistemológica, ética, política, econômica, estética ou do rigor da lógica e da linguagem. Ao mesmo tempo, a relação perguntas-respostas tem repercussões na prática na medida em que permite refletir sobre os problemas e prever soluções. Desta forma, temos caminhos para conduzir a ação de maneira inteligente. É por isso que a pergunta desperta e conserva a curiosidade e a crítica e, nesse percurso, acaba melhorando consideravelmente a maneira de pensar, imaginar e criar como resultado do exercício de diferentes habilidades e competências. Outro aspecto importante é o desenvolvimento da auto-estima, ou seja, o senso de que se é capaz de formular boas perguntas e buscar respostas, ou pelo menos compartilhar a pergunta com alguém que ajude a encontrar caminhos. Assim, a pergunta contagia também outras pessoas que se põem na busca de questões antes não percebidas ou sentidas. Desenvolve-se uma "simpatia inteligente" pelos problemas humanos. Não seria esse um bom motivo para uma abertura e acolhimento maior, mais radical à pergunta por parte dos educadores, ao cultivo desta atitude questionadora necessária a qualquer processo de reflexão, crítica e criativa?


Imaginemos agora esse movimento encadeado de perguntas - repostas em torno de problemas concretos dos alunos acontecendo em sala aula. Torna-se uma espécie de jogo no qual o diálogo que se estabelece entre as crianças e o professor é extremamente significativo, atraente e lúdico. Mais do que isso, é uma aprendizagem viva em que os alunos participam de todo processo: formulação e registro das perguntas com as respectivas autorias, organização das perguntas em grupos conforme as questões suscitada de determinado problema, aprofundamento destas questões no diálogo da comunidade, registro dos resultados: conceitos construídos, hipóteses, novas perguntas, ações propostas. Além de aprender um conteúdo de forma reflexiva e contextualizada, aprendem-se também valores: respeito pelas diferenças de opiniões, interesse pela investigação do que é problemático na realidade, envolvimento com os objetivos comuns, respeito às regras combinadas na comunidade de sala de aula, capacidade de esperar a vez e de exigir sua vez para expressar seu ponto de vista, capacidade de se comunicar com clareza com os outros, solidariedade e tolerância às diferenças, responsabilidade com a prática democrática e com a própria educação. O processo comporta também uma aprendizagem emocional na medida em que a criança tem a oportunidade e de questiona-se sobre certos sentimentos e investigar sua procedência, pertinência e relevância para sua vida em grupo. É nesse contexto de comunicação que se desenvolve a reflexão acerca da própria linguagem, condição básica para a reflexão em qualquer área de conhecimento. O inverso desta prática é a educação centrada na repetição das perguntas e respostas já prontas de um conteúdo acabado. A fragmentação do conteúdo em questões dá uma falsa idéia do processo de conhecer, como se este fosse apenas uma pergunta e uma determinada resposta. Destina-se à memorização e pressupõe que o aluno milagrosamente junte as partes para formar uma compreensão ampla de certa matéria. Esta prática colabora indiretamente para inibir o potencial indagador dos alunos. Contribui para desenvolver atitudes de acomodação ou adaptação passiva do aluno ao mundo dos conhecimentos. Uma coisa é ensinar palavras, conceitos, frases, concordâncias, equações, informações para se guardar na memória, outra, bem diferente, é ensinar a perguntar e pôr o pensamento a procurar resposta ou respostas que podem se transformar em conceitos, frases, equações, etc. A dificuldade está em perceber que a pergunta da criança é sempre sobre algo da cultura, daquilo que é humano e, por isso, de extremo interesse para ela. E não é sobre isso que trata o "conteúdo curricular"? Ensinar a perguntar é reensinar o encantamento, o assombro, o distanciamento inteligente desta realidade para captá-la de forma problemática. Responsabilidade, interesse e esforço nascem naturalmente de em uma criança intrigada por um problema vital a ser investigado. O ser pensante aprende também a correr riscos e lidar com a novidade. Há que se reinventar o caminho!


O processo de aprendizagem mediado por perguntas que permitem investigar um problema é o que chamamos de "pedagogia da pergunta". Esta prática visa o desenvolvimento do pensamento inquiridor, crítico, criativo e ao mesmo tempo ético. Aprender a trabalhar com a pedagogia da pergunta exige rever a formação dos professores. Vivemos numa cultura de perguntas e respostas "dadas" e que viciou também o modo de perguntar e responder. Perguntas fora deste quadro atrapalham a aula e são um incômodo para a memorização do conteúdo, ou pior ainda, para se vencer um conteúdo pré-determinado. Afirmamos que as próprias crianças têm que refletir sobre as perguntas que fazem, mas isso não acontece se a classe for submetida a uma prática autoritária que poda inclusive a possibilidade de errar a pergunta e auto-corrigir o curso da investigação. Portanto, o desafio é aprender a lidar com o medo das novas perguntas e desenvolver uma cultura que estimule um perguntar de forma diferente: genuíno, radical, aberto e constante, buscando explorar os extremos do saber. Uma cultura de perguntas que interrogue de forma substantiva para conhecer, questionando os processos / procedimentos e produtos da reflexão. Questionar para não se aceitar algo como natural, para não se aceitar passivamente os significados sem o processo de entendimento das razões, pressupostos e conseqüências. O que está em jogo é a formação da capacidade de julgamento dos alunos. Ensinar a perguntar é ensinar a pensar por si mesmo. E aprender o processo de pensar as perguntas e as respostas é aprender a aprender. E como este aprender a aprender necessita de uma prática de compartilhar idéias, deliberação conjunta e a busca de consensos e respeito ao dissenso, ele reforça nossas atitudes de vida democrática de exercício de cidadania.


Afirmar que a criança tem o direito de pensar é reconhecer o dever das escolas e educadores de ensinar a pensar. A cultura do pensar por perguntas na escola não se faz sem um espaço para a filosofia, área de conhecimento que tem se especializado sobre o pensar. Estamos falando da atividade de questionamento filosófico: uma prática que deve ter uma dimensão específica chamada de "disciplina" de filosofia e uma outra dimensão interdisciplinar e multidisciplinar. Educar para o pensar nesta perspectiva exige rever muitas de nossas concepções e processos pedagógicos. Talvez essa seja a questão central diante da realidade globalizada onde a técnica nos dá acesso a todas as informações, a todos os pensamentos, mas não nos dá a atitude reflexiva, questionadora, investigativa.


Envie seus comentários sobre o texto pelo e-mail abaixo!
Informações:
Fone: (41) 3323 3313 ou (41) 9614 4183
e-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra SpamBots. Você precisa ter o JavaScript habilitado para vê-lo.
 

LAST_UPDATED2