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A prática do filosofar no Brasil impõe um olhar atento para a realidade. As condições em que o país se encontra causam perplexidade: tem um dos piores índices de analfabetismo funcional e rendimento escolar do mundo, para não falar em outras mazelas como pobreza, violência, desigualdades econômicas e sociais, corrupção, discriminações sociais, dificuldade de acesso à cultura, destruição ambiental, dentre outras. Seria ingenuidade chamar a filosofia para dar conta de resolver tudo isso. Mas poderíamos excluí-la desta tarefa? Pode-se filosofar na condição de vítima desta realidade não autorizada? Filosofar é iniciar uma experiência diferente, original. Um primeiro passo do filosofar pode ser o de questionar esta realidade, buscar as causas mais profundas, primeiras. Inquirir o como e o porquê das práticas humanas ao longo da história produzirem esta realidade. Pensar os problemas e ousar caminhos diferentes levando em conta critérios como a dignidade humana e a cidadania, que também estão sujeitos à inquirição, é dar espaço à atividade do filosofar. A tarefa de refletir, investigar, dialogar sobre a pessoa que se quer ser e o país que se quer construir passa necessariamente por uma educação filosófica que instigue criar e recriar os próprios caminhos. A prática do filosofar é uma tarefa permanente. Inicia na infância, especialmente na Educação Infantil. A vida da criança já tem um enredo, uma cultura, uma linguagem, sensações e percepções do mundo. Os problemas pulsam no seu coração. Esta é a matéria do filosofar. Pensar é fazer a experiência da criança ser mais rica e significativa possível. O mudo da criança é o mundo do brincar. O filosofar tem que estar enlaçado com o brincar. Ali o filosofar é formiga e cigarra oferecendo condições para um contínuo crescimento e um desabrochar das potencialidades de cada pessoa. A fina chama, luz do filosofar que se acende na infância, necessitará de nova força para trabalhar as questões trazidas pelo período turbulento da adolescência e juventude. Filosofar requer um novo jeito, uma nova cara, um navegar nas ondas da rebeldia típica desta idade. E quem ousa parar essa onda terá que enfrentar um tsunami... Assim, o filosofar é múltiplo. Terá outras exigências de rigor, radicalidade, abrangência no Ensino Médio, na graduação, na pós-graduação. Mas se a abstração é necessária, abstrair-se da polis, dos problemas reais dos concidadãos, estará comprometendo sua vocação. É com esta perspectiva que se lança a proposta de “Práticas do filosofar” como uma contribuição importante a dar para a sociedade brasileira e, em especial, para a comunidade educacional. As práticas do filosofar desempenham um papel decisivo para outra cultura do pensar na Escola. As principais atividades desta proposta são: a formação continuada dos professores na metodologia da comunidade de práticas do filosofar; o trabalho com a filosofia como prática integradora dos conhecimentos interdisciplinares e a pratica da filosofia como estudo do pensamento dos filósofos. Como proposta de uma educação filosófica contínua e múltipla está organizada em quatro linhas de atuação: a) Práticas do Filosofar; b) Educação do pensamento e das emoções; c) educação ética e cidadã; d) Metodologia: a comunidade de práticas do filosofar. a) Práticas do Filosofar As Práticas do Filosofar visam enriquecer e potencializar a experiência do pensar nas interações sociais, lingüísticas e culturais de uma comunidade. Os elementos fundamentais da prática do filosofar são: a atitude de espanto e admiração, a pergunta ou problematização, o diálogo e o conceito. Estes aspectos interagem reciprocamente fazendo com que a experiência do filosofar seja intensa nas suas emoções (pensar os problemas no Brasil é doloroso, mas pode-se fazer com o prazer da amizade, da alegria típica do brasileiro), radical e abrangente no seu alcance, significativa e transformadora nos seus resultados. Uma imagem da infância que poderia ilustrar uma prática do filosofar é a experiência do balanço. A criança se encanta ao ver o brinquedo. Sentar no balanço causa estranhamento, medo, insegurança. Os primeiros embalos são feitos com o apoio das mãos da mãe. Aos poucos a criança vai se soltando até encontrar dentro de si a força para se equilibrar e se movimentar. Seguidamente a criança chama um amigo para empurrá-la, dando novo ânimo para a brincadeira. O balançar se transforma numa experiência alegre, prazerosa, livre. Nenhum risco de dor é empecilho para a criança aventurar um novo balanço. Gangorra, pular cordas, amarelinha, brincadeiras de roda, danças, etc, sozinho ou em grupo, brincar é se balançar. Aprender a se balançar é aprender a se (des)equilibrar, experiência que envolve o corpo, pensamento, emoções, o mundo, os outros. Aprender a brincar de se balançar é aprender a lidar com os perigos, com a mudança, com os limites. O balanço é como o rio de Heráclito. A vida é um contínuo balanço em busca de um equilíbrio provisório que é o pensar os problemas. Filosofar é fazer a experiência do balanço, uma ação corpórea: estranhamento, correr riscos, transgredir os limites do óbvio, encontrar um equilíbrio entre dúvida e crença. O movimento é feito pela força das perguntas e pelo peso das respostas, ou vice-versa. Desta forma, a filosofia é uma atitude corajosa de pôr em balanço crenças, idéias fixas, certezas, o óbvio ou banal, aquilo que o senso comum toma como estabelecido e verdadeiro e que rege a vida cotidiana. Aquilo que em dado momento parece evidente passa a ser percebido como incerto, duvidoso que demanda construção de novos sentidos. E o balanço continua! O balanço do filosofar poderia ter um nome: a linguagem. É com a palavra que o pensamento faz o próprio balanço. A palavra é a possibilidade do filosofar, de libertar a imaginação. A imaginação é a oficina de novos balanços: a criação de problemas, conceitos, formas de viver e refletir. Porém, há uma diferença radical entre o brinquedo balanço e outro balanço, o do pensamento que se faz com a palavra. Neste caso, a mediação se dá pela educação. Mas não é toda educação que favorece aprender a se balançar. Tem a educação que sobrecarrega a memória. O peso do saber acumulado, das verdades estabelecidas é balanço sem movimento. O seu oposto é o movimento fortuito que carrega à moda de correnteza do rio. Em ambas as situações o balanço não é autônomo, pois é conduzido por forças externas. Em contrapartida, tem a educação que liberta a imaginação, fortalece as asas do pensamento permitindo o vôo pelo mundo do desconhecido. Torna possível a reinvenção das relações do ser humano com o mundo, com os outros e consigo mesmo. Isto acontece quando os quatro elementos das práticas do filosofar operam conjuntamente: o filosofar como despertar da sensibilidade: espanto e admiração; o filosofar como perguntar, o filosofar como dialogar e o filosofar como criação de conceito. A Educação do pensamento e das emoções Pensar é um direito do homem e da mulher reconhecido tanto do ponto de vista natural como histórico e cultural. Este direito é afirmado quando se defende o direito à liberdade de opinião e expressão, direito à educação, direito a decidir e praticar crenças, o direito às demais liberdades individuais, civis, religiosas. Pensar é condição para conceber os direitos ou, melhor, o direito de ter direitos e praticar os deveres. O direito de pensar é um bem social que se conquistou com muito esforço, sangue e suor e revolucionou as relações na sociedade. A filosofia advoga esse direito desde a sua origem, caso contrário simplesmente não existiria, assim como muitos outros saberes que nasceram no bojo de suas reflexões. E faz seu dever de casa sempre que pensa como pensamos. Então, o direito de pensar implica no direito de filosofar que, por sua vez, implica no dever de ensinar a filosofar. Filosofar neste caso como forma de usar a inteligência para condução dos destinos da vida privada e pública, articuladas dialeticamente. Entretanto, estamos longe de um consenso sobre o que seja o pensar. Pensar é um campo aberto à investigação da filosofia e das ciências. Não cabe aqui um investigar o problema do que é o pensar ou estudar as teorias da gênese e desenvolvimento do pensamento. Podemos partir do princípio que o pensar é o recurso que o ser humano dispõe para garantir sua sobrevivência no mundo. O ser humano desenvolve a inteligência como forma de resolver problemas para sua sobrevivência. Além disso, pode comunicar essa “inteligência” acumulada ao longo do tempo para os outros membros do grupo e para as novas gerações. A linguagem corrobora sobremaneira para o desenvolvimento do pensar. Neste sentido, o pensar é, antes de tudo, um direito que garante a continuidade da vida, de uma vida enriquecida com mais significados. O direito de pensar implica num dever que é o de ensinar a pensar, como já mencionado. A Escola é uma instituição criada na modernidade com o dever de ensinar a pensar. A educação é a instância mediadora do ensinar a refletir. Daí decorre duas questões de uma paidéia do pensamento contemporâneo: uma refere-se à contribuição da filosofia para a educação do pensar e, a outra, a educação do pensar filosófico propriamente dita. Por um lado, a filosofia é contínua interrogação sobre como pensamos, especialmente através da área de investigação da lógica e linguagem, apoiada também pela epistemologia e teoria do conhecimento. Neste sentido, a Filosofia será sempre o cuidado com o pensar sobre o próprio pensamento: seus procedimentos, suas inferências, seus métodos, seus resultados. Digamos que ela exerce o papel de “guardiã da racionalidade”. Assim, exercendo um papel de crítica do pensar, estaria contribuindo para o pensar matemático, o pensar histórico, o pensar artístico, o pensar musical, o pensar literário, etc. Assim, o filosofar desenvolve um papel interdisciplinar. A outra tarefa da educação do pensar, especificamente a educação do pensar filosófico, já foi tratada sob o enfoque das “Práticas do Filosofar”, na primeira parte deste texto. Um problema a ser pensado é como viabilizar a educação do pensar filosófico no ambiente escolar? Dois critérios podem ajudar a reflexão sobre este problema: a necessidade de formação específica e continuada dos professores que trabalham com filosofia e a delimitação do espaço para esta disciplina em todos os níveis e graus da educação. A cultura do pensar na escola propõe uma mudança na concepção de pensar, além de pedagogia específica. Aprender a pensar é “aprender a aprender". Pensar é o método de resolver os problemas de forma inteligente, ou seja, a razão pensa os problemas levado em conta as implicações das idéias para a vida das pessoas no presente e no futuro, individual e coletivamente. O outro lado da razão é a emoção. As emoções constituem um aspecto importante da visão de mundo, do jeito de avaliar e valorar de cada pessoa. Aprender a aprender é dar voz às emoções. Trazer as emoções ao mundo da palavra torna possível pensar sobre esta dimensão tão cara da existência. É uma pedagogia das emoções, um aprender com nossos sentimentos. Além disso, através da palavra podemos comunicar nossos sentimentos, permitindo uma empatia mais profunda com o outro. Aprender a aprender tem esta duas dimensões: aperfeiçoamento cognitivo e emocional. A educação de ambos é essencial para a construção de um mudo melhor. Aprender a pensar não é aquisição de um corpo de conhecimentos através da memorização. Não é também aquisição de um rol de habilidades por imitação ou repetição. Aprender a pensar problemas pode adicionar novos conhecimentos às crenças de uma pessoa ou novas habilidades ao conjunto de habilidades adquiridas. A diferença é que aprender a pensar problemas não é duplicação de conhecimentos e habilidades já adquiridos pelas outras pessoas. É um processo que cria crenças e habilidades novas quando efetivamente a pessoa se dedica a pensar como resolver os problemas. Nesta prática, a pessoa desenvolve o hábito de pensar problemas que é a origem de todos os conhecimentos e habilidades. Esta é tarefa da vida inteira. Uma pedagogia para o cultivo do pensar e das emoções na escola é a comunidade de práticas filosóficas. Educação Ética e Cidadã Há um balanço pendular entre ética e cidadania. Elas constituem duas dimensões importantes da vida: o âmbito do privado e o do público. Emancipação e razoabilidade os corolários. O âmbito do privado refere-se ao indivíduo, mais especificamente à pessoa humana considerada pelo direito na sua dignidade, liberdade, legitimada em muitas leis. Diz-se que a pessoa é portadora de valor em si mesma e fonte de todos os valores. Corpo, emoções / sentimentos, sexualidade, pensamento, consciência, hábitos, vontade, história, a pessoa é uma unidade complexa, idiossincrática, dotada de capacidades e potencialidades e em processo contínuo de crescimento, um ser ativo e em constante transformação. A ética pressupõe a construção da identidade, processo que se dá numa relação inter-subjetiva. É no diálogo com os outros que se dá a descoberta das próprias capacidades. Aprende-se a lidar com as qualidades e potencialidades, desenvolve-se um estilo de pensar e agir, apura-se a dimensão do gosto e da vontade. Assim, adquire-se consciência da singularidade de si mesmo, aprendendo a se valorizar, a ter respeito próprio e responsabilidade pela condução de sua vida. Estes são alguns aprendizados que criam condições para o pensar e agir ético de forma autônoma. A autonomia implica ter auto-estima e se autogovernar levando em conta o outro. Autonomia é o exercício do autogoverno de si na relação com os membros de uma comunidade. Implica respeito ao outro como diferente e como co-constituidor de si mesmo. As diferenças naturais, culturais ou resultantes da elaboração de cada um favorecem a pluralidade humana. A variedade é fonte de vida e enriquecimento segundo o que nos informam estudos da biologia. Toda diferença faz diferença. A discriminação de alguma pessoa por motivos econômicos, físicos, sexuais, étnicos, cor de pele, crenças, etc. ou a privação de algum direito que a pessoa estaria apta a usufruir, produz a desigualdade. Por isso, a educação ética pode estimular as diferenças enriquecedoras e prevenir discriminações que produzem desigualdade, intolerância, violência e o empobrecimento das relações sociais. A convivência com as diferenças cria conflitos. Por isso, os seres humanos criam as regras da convivência determinando como as condutas devem ser. A criação de normas, regras e leis constitui a organização social, que é a esfera da polis. No ambiente de sala de aula podemos chamar essa organização de comunidade. Esta discussão introdutória à proposta de Práticas do Filosofar traz indicações de alguns caminhos metodológicos. Organizar a experiência do filosofar é uma prática do filosofar de grande importância já que propõe desencadear um pensar múltiplo. A compreensão desta prática de planejamento do trabalho com o filosofar implica uma outra prática que é oferecida através de um processo de formação do educador. O detalhamento deste processo se dará ao longo da prática filosófica da formação do educar. Apontamos os eixos da pedagogia da Comunidade de Práticas Filosóficas. Práticas da sensibilidade: Espanto e admiração |
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